Poesias

ABRAÇO SILENCIOSO

Faltavam instantes para iniciar a Conferência Municipal de Cultura de Canoas/RS na morna manhã de outubro.
Os artistas, à medida que iam chegando, procuravam seus pares e uniam-se por segmento.
A diversidade cultural, respeitadas suas características, era homogênea.
Minhas atenções se voltaram para um casal, sentados na primeira fila de cadeiras.
Os dois, também artistas, ignoravam o mundo e o diálogo entre eles era profundo.
Eles usavam a melhor das ferramentas para se entender: o toque.
Ela com deficiência visual e ele com deficiência auditiva.
Essas deficiências não os impediam de se comunicarem.
Suas mãos falavam silenciosamente enquanto o ruído das falas penetrava no ambiente.
Prestando mais atenção ao jovem casal, percebi que a comunicação entre aqueles amigos era mais profunda e verdadeira do que os sons emitidos pela maioria dos presentes.
O diálogo entre as mãos era intenso enquanto se cruzavam e acariciavam as faces simultaneamente para a leitura labial.
Veio-me à lembrança, a figura dos Três Macacos Sábios de origem japonesa, baseada em um trocadilho japonês, cujos nomes são mizaru (o que cobre os olhos), kikazaru (o que tapa os ouvidos) e iwazaru (o que tampa a boca), traduzidos como: não ouça, não fale e não veja o mal.
A imagem, lembrada da infância, leva-me à reflexão e percebo que cada qual com sua limitação, isola-se do mundo.
Porém, para os dois atores principais da cena, que não imaginavam eram por mim percebidos, tiveram suas limitações rompidas.
Limitações de deficiência, linguagem, comunicação e até mesmo de gênero.

Neida Rocha
26/07/2014

 

 

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